Transparência e Alinhamento: O primeiro ano da RCVM 179 e seus Impactos no Mercado Financeiro

O tempo realmente voa. Há pouco mais de um ano publiquei um artigo sobre a chegada da Resolução CVM 179, conhecida como a “Resolução da Transparência“, que entrou em vigo em novembro de 2024. Está normativa exige maior transparência sobre a remuneração e os custos na distribuição de produtos financeiros, para que os investidores tenham informações claras sobre como as plataformas são pagas, visando reduzir conflitos de interesse. Para alguns, parecia mais uma regra sem clareza com foco apenas em detalhes operacionais.

Para mim a norma ampliou a visibilidade sobre os custos e a remuneração dos investimentos, o que consequentemente abriu espaço para a adesão do modelo de taxa fixa entre os investidores. Penso que a RCVM 179 vai muito além, ela traz uma mudança significativo para o mercado brasileiro. Desde 2008 no mercado e 2019 gerindo patrimônios, com foco educacional, levei antecipadamente aos meus clientes os sinais da mudança, em 2023 relatei um resumo dos primeiros sinais, pude explicar de forma clara e transparente sobre os dois modelos de remuneração praticados no Brasil.

Meus clientes sabem que meu modelo de trabalho é pautado em um formato que valoriza o relacionamento, a partir de um planejamento financeiro mais consultivo, transparente e de longo prazo. Não trabalho por comissão, venda de produtos, mas pela gestão e acompanhamento de patrimônio do cliente, o que elimina os conflitos de interesse e fortalece a relação de confiança.

Um ponto que percebi, mesmo com a explicação clara para os clientes é que muitos preferem “não saber” quanto pagam. Isso, pois o débito em conta mensal torna o custo visível e causar desconforto inicial — gera atrito psicológico. O que exemplifico para eles é que não se contrata um serviço sem ter um acordo, logo o custo do não saber ou não querer ver pode custar caro, abordarei isso no decorrer do texto.

Vale destacar que não existe um modelo de remuneração “certo” ou “errado” no mercado brasileiro; há, sim, alternativas que se adaptam melhor ao perfil e aos objetivos de cada investidor.

Brasil e Mundo:

O modelo de taxa fixa ainda está em estágio inicial no Brasil. Há muito a aprender com a experiência internacional, e como adaptá-lo à nossa cultura e economia. Nos EUA, por exemplo, o modelo demorou mais de 10 anos para alcançar representatividade no mercado.

Segundo a AAWZ “a pressão regulatória global por transparência está aumentando. O Reino Unido já baniu o modelo de comissões, os EUA têm 97% dos advisors migrando para taxa fixa até 2026, e o Brasil segue na mesma direção com a CVM 179 e o boom de consultorias.

Os primeiros 12 meses:

O marco principal desses primeiros 12 meses está na relação de confiança onde fica claro para o cliente finalmente sabe quem ganha, como ganha e por que ganha, o cliente sabe exatamente qual é o seu custo – sem surpresinhas, isso deixa a relação mais justas e alinhadas — como o modelo de taxa fixa ao qual atuo com meus clientes. Segundo estudo da AAWZ “mais de 75% dos assessores possuem ao menos 1 cliente dentro da base no modelo de taxa fixa.

Houve diversos casos de clientes que, ao compreenderem que podiam escolher o modelo de remuneração, agradeceram a transparência e disseram se sentir muito mais confortáveis por apresentar tal modelo, onde disseram que sempre se perguntaram sobre e agora a relação fica mais confortável.

Por outro lado, alguns clientes afirmam: “No banco não pago!”
Como comentado, o custo do não saber pode ser muito caro. O lucro dos 5 maiores bancos soma R$ 29 bi no 3º tri de 2025. A cada trimestre crescentes nos diz muito, nessa linha me lembro da frase atribuída ao grande economista Milton Friedman, ganhador do Nobel de Economia de 1976, mas na verdade seu criador foi o escritor de ficção científica Robert Heinlein: “não existe almoço grátis“.

Proibições:

Na matéria publicada pela BBC , há mais de 10 anos, deixa claro que o modelo amplamente utilizado no Brasil em qualquer instituição financeira foi proibido em vários Países. A proibição do modelo atual de comissionamento segue para outros mercados com: Austrália, União Europeia, Nova Zelândia, Dinamarca, Finlândia, Canadá e EUA + de 80% do mercado segue o modelo de taxa fixa. Como notamos alguns mercados baniram comissões em determinados segmentos, no Brasil, por ora, está em movimento de aumento de transparência e não de banimento amplo.

Fonte: BBC

Custo no tempo:

A pesquisa da Vanguard revela que a adoção de uma estrutura taxa fixa poderia gerar economia de custos para o investidor. Isso deixa claro que o custo do achar que é de graça no longo prazo deixa a brincadeira bem onerosa para o investidor, por isso prezo pela transparência em deixar claro que existe custos em ambos os modelos, a questão é saber o que efetivamente é pago.

O estudo revela que o custo médio ponderado é de aproximadamente 2,35% ao ano na Alemanha, 1,91% Itália e 1,64% Reino Unido. A pesquisa com mais de 1.000 assessores financeiros na Alemanha, Itália e Reino Unido, atendendo 200 mil investidores individuai, após 30 anos, o investidor que paga o custo médio por assessoria baseada em taxa fixa terá 23% mais patrimônio do que quem paga a média de comissão. A diferença percentual representa impacto substancial acumulado ao longo dos anos.

Fonte: “Total cost of investing: Improving outcomes for Europe’s retail investors”. Vanguard (2024).

Estudo OCDE:

Impacto na rentabilidade que interfere no crescimento patrimonial. Um estudo de uma universidade alemã mostrou que o modelo taxa fixa tem a capacidade de quase dobrar o patrimônio quando comparado a carteiras no modelo de comissão. A pesquisa, concluída em 2020, analisou dados de 38 países da OCDE entre 1997 e 2020.

A conclusão foi de que investidores de países que adotaram exclusivamente a taxa fixa tiveram retornos anuais de 1,5% a 2% maiores. Países como Dinamarca, Finlândia e Reino Unido introduziram proibições de comissão.

Fonte: Tabela 2 página 10 do estudo The Effect of Commission Bans on Household Wealth

Com base nesses percentuais, os pesquisadores projetaram um investimento de € 100 mil com aportes recorrentes ao longo do tempo. A diferença, minúscula no curto prazo, chegou a 84% do patrimônio em quatro décadas.

Fonte: The Effect of Commission Bans on Household Wealth

Diferença:

No modelo de percentual Fixo, é acordada uma taxa fixa, sem comissões adicionais pelos produtos recomendados. O profissional é remunerado por um percentual anual aplicado sobre o patrimônio administrado, e, muitas vezes, parte da comissão originalmente embutida nos produtos é devolvida ao investidor na forma de rebate reduzindo o custo anual.

Por outro lado, no modelo de comissionado a remuneração é baseada nos produtos recomendados. Esse modelo pode gerar potenciais conflitos de interesse, dependendo da índole do profissional que é remunerado de acordo com o produto/transação realizada, sob uma taxa percentual do valor transacionado esse pode ser motivado a escolher o produto que lhe melhor remunera e muitas das vezes que não faz sentido para o cliente e seus objetivos.

Cuidado com os Lobos na pele de cordeiros:

Chegam em mim muitas histórias de clientes e amigos, fico surpreso como existem pessoas de mal caráter, empresas nas redes que se vendem como isentas, dizendo que a normativa veio para expor as assessorias, ou seja, eles são imunes. Seriam verdadeiros Robin Hood?

Há no mercado grandes marcas/influenciadores (não citarei nomes para evitar problemas), se vendem como isentos, mas não detalham sua remuneração, o que vai contra o espírito da RCVM 179. Eles não mencionam o quanto recebem, se colocam como os salvadores da pátria batendo em todo mundo, mas será que as consultorias famosinhas (em especial a de logo azul e outra de um “parente que todo mundo tem”), são realmente filantropias? 

A publicidade, em muitos casos, virou principal ferramenta de captação de clientes. Infelizmente as pessoas acreditam em tudo, demonstra uma falta de educação e reflexão das grandes massas. Isso me tira do sério quando ouço certas pessoas do mercado se colocando como “Madre Teresa”. São lobos na pele de cordeiro, em meu ponto de vista a CVM deveria punir severamente os influenciadores pelas falas irresponsáveis, tudo isso só para buscar seguidores e vender seus cursos “com a fórmula mágica”. 

André, então está dizendo que todos os assessores são bonzinhos?

Não, muito pelo contrário…do lado de cá ouvi cada absurdo, como clientes que comentaram que em seus escritórios antigos foram abordados com a informação que “A mudança para taxa fixa é uma obrigatoriedade imposta pela CVM”. Outros que falamos que alterando para a taxa fixa de X% (a maior por sinal), o cliente terá o custo reembolsado integralmente.

Certamente ao longo do tempo, a CVM e suas atualizações demonstrará quem trabalha de forma ética e transparente. Com a evolução da maturidade educacional dos investidores e modelo de taxa fixa difundido veremos quem está de calça curta.

Resumo da ópera:

Independentemente do modelo escolhido, quero reforçar que isso não mudará a maneira justa e correta com a qual sempre atuei. Continuarei focado em adaptar os produtos às necessidades e interesses individuais, com foco na construção de uma carteira diversificada e de longo prazo — o que considero fundamental diante das incertezas econômicas, políticas e de mercado.

Por fim, entendo que a relação que busco é pautada em confiança e acredito que a transparência trazida pela Resolução CVM 179 fortalecerá o mercado brasileiro. O conflito continuará existindo sempre que houver um ser humano envolvido. O que muda é o ambiente que incentiva a ética e pune o improviso. Por isso resumo o modelo de taxa fixa em 7 pontos:

O poder de escolha de um modelo de remuneração, na minha visão, é um grande avanço para o mercado brasileiro, o que poderia resumir com o pensamento que o incentivo passa a ser apenas um: fazer o patrimônio do cliente crescer.

Coloco-me à disposição para esclarecer dúvidas e discutir qual estrutura de remuneração faz mais sentido para suas necessidades e objetivos financeiros.


O custo do não saber ou não querer ver pode custar caro. Não existe almoço grátis!

Confiança e transparência são fundamentais para uma relação de longo prazo.

Comentários


Compartilhe: